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Crónicas de uma Vida Pouco Privada

Espaço dedicado à vida pouco privada de uma família de quatro, mãe, pai, mini e micro, gerido pela mãe que tenta não se esquecer de ser mulher e companheira quase todos os dias...

Espaço dedicado à vida pouco privada de uma família de quatro, mãe, pai, mini e micro, gerido pela mãe que tenta não se esquecer de ser mulher e companheira quase todos os dias...

Dos filhos...

Preparem-se que este post é longo...

 

Há mais ou menos dois anos, comecei a tomar consciência de algo que no fundo sempre soube, mas que sempre tentei ignorar. Nós somos totalmente forçados pela sociedade a viver da forma como vivemos. Tenho vários exemplos disso, alguns mais flagrantes que outros, mas esse será tema para outro post. Hoje quero apenas falar de um tema, os filhos.

Toda a pressão social que existe à volta de ter ou não ter filhos, ter um ou dois, ter dois ou mais, ter filhos rapazes ou filhos raparigas, amamentar, movimentos de educação alternativa, atl's, actividades extra curriculares, etc, etc, etc, é completamente ridículo e é quase obsceno a forma como as sociedades impõem o rumo de cada casal na actualidade.

Em miúda, não demonstrava grande queda para a maternidade, tinha um Nenuco, que servia mais de audiência para as minhas brincadeiras do que de suposto bebé de fingir, nunca tive carrinho de brincar e nunca o levei para lado nenhum, como via muitas miúdas da minha idade a empurrar o Nenuco num carrinho cor de rosa cheio de folhos, vestido com as roupas de quando elas eram bebés. Não era de todo a minha cena, mas durante a adolescência isso mudou, e decidi que queria ser mais jovem, não podia ser tão jovem como a minha mãe tinha sido, porque queria estudar, mas seria mãe aos vinte cinco, porque com essa idade, na minha sonhadora cabeça de adolescente, já tinha concluído a licenciatura e teria entrado no mercado de trabalho, o que queria dizer que teria um emprego estável e um conforto financeiro que me permitia pensar na maternidade.

Mais tarde já na universidade, constatei que o meu sonho era bonito, mas impraticável, porque o mercado de trabalho não era assim tão acolhedor como idealizei e porque os meus namoros de universidade foram grandes desilusões, levando-me uma altura a questionar a hipótese de ser mãe solteira adoptante, sem grande justificação, apenas nunca me passou pela cabeça fazer uma inseminação, pensei sempre que se fosse essa a minha vontade, ser mãe solteira, adoptaria. 

Mas depois o homem da minha vida apareceu, e as coisas mudaram de rumo, acabámos o curso no mesmo ano e rumámos à minha terra natal, porque a oportunidade de trabalho assim o ditou, e o sonho da maternidade ficou em stand bye, porque era jovem e ingénua e achava que isto de trabalhar na área era realmente uma dádiva e que ia ter uma carreira promissora, enfim, passados poucos anos compreendi que um trabalho serve realmente para ganhar dinheiro de forma a manter uma vida estável e tentar fazer o que gostamos de verdade. Por isso, quanto verifiquei que não ia ser uma "engenheira famosa", o sonho da maternidade voltou e depois andámos a fazer tempo, para encontrar um período estável nas nossas vidas, o homem era professor e não estava fácil arranjar lugar perto de casa.

Mas como a vida tem um rumo próprio, quando nós pensávamos que a estabilidade tinha chegado, e decidimos engravidar, o pai ficou desempregado, aliás esse foi o último ano que deu aulas, e para provar que a vida tem realmente um rumo definido, quando o nosso segundo filho nasceu, o pai também estava desempregado. O que na verdade não mudou em nada a forma como os dois foram recebidos na nossa família.

Sou uma mãe feliz, com medos e dúvidas, certezas e conquistas, como a maioria das mães que conheço, queria ser mãe, não foi a sociedade que me "obrigou", foi algo que recebi com toda a naturalidade do mundo e sei que sou hoje muito mais eu, do que era antes de os ter, mas...

Há sempre um mas... Mas vou deixar esse mas para mais à frente.

Já contei como não queria ser mãe, como passei a sonhar ser mãe e como fui mãe, agora vou contar porque comecei este post a falar na pressão que a sociedade faz sobre nós.

Cresci numa casa cheia, passei metade da minha infância e metade da minha adolescência a viver numa família de 7 pessoas. Os meus primos que viviam numa zona mais interior passavam a semana connosco, para puderem estudar sem fazer dezenas de quilómetros todos os dias, por isso para mim família sempre foi barulho, muita gente à mesa, muitas gargalhadas e muitas discussões.

Sempre quis ter uma família grande, por isso sempre que me perguntavam quantos filhos queria, o número três saltava rapidamente. Quando começámos a falar em constituir família, o homem e eu apalavramos dois filhos gerados e uma adopção. 

Com o tempo comecei a achar que gostava de gerar os três filhos e adoptar quando eles fossem mais velhos. 

Como gerámos dois rapazes a pressão social para "tentar a menina" tem sido grande, e aqui entra a justificação deste post.

Porque é que temos filhos? Eu sei porque quis ter filhos, sei porque quis ter dois e sei porque agora não penso em ter três, gerado ou adoptado. Eu sei porque tomei todas as decisões que tomei no que diz respeito à maternidade e sei porque não quero "tentar a menina", apesar de ser algo com que sempre sonhei. Eu sei, mas... os outros sabem? 

A sociedade impõe-nos a constituição de família, as mulheres com mais de vinte e cinco anos sofrem pressões incríveis para começar a pensar em ser mães, as de trinta anos, são quase condenadas por ainda não serem mães e as com quarenta anos são rotuladas de loucas se quiserem ser mães. E nós aceitamos essa imposição, e constituímos família, temos filhos, e depois, o resto? Quem faz? Porque o que a sociedade nos esquece de impor é a educação desses filhos, a responsabilização e a real construção da FAMÍLIA.

Hoje ter filhos está na moda, é giro comprar o carrinho de bebé topo de gama com tracção atrás e rodas XPTO, é giro comprar cinco conjuntinhos para cada dia e três pares  de sapatos quando eles ainda nem os usam, mas cuidar deles, manter uma família estável, educar para a responsabilização, para a compreensão, para o amor próprio, para o respeito pelo próximo, para a generosidade, para o civismo, cada vez é mais démodée.

Quando olho à minha volta e não me excluo desta situação, vejo crianças irresponsáveis, pouco colaborantes, muitas vezes mal educadas, mas sejamos honestos, na realidade as crianças, são educadas umas pelas outras.

Felizmente tenho muito bons exemplos à minha volta, mas vejo muitas famílias que não são realmente famílias, a sociedade impõe-nos níveis de consumo completamente desajustados e ritmos de vida completamente incompatíveis com a constituição de uma família estável e equilibrada.

Como já disse atrás, sou uma mãe feliz, com medos e dúvidas, certezas e conquistas, como a maioria das mães que conheço. Queria ser mãe, não foi a sociedade que me "obrigou", foi algo que recebi com toda a naturalidade do mundo e sei que sou hoje muito mais eu do que era antes de os ter, tenho uma família grande e bem disposta, na maioria dos dias, feliz, mas...

Mas os filhos não são necessariamente sinónimo de famílias felizes, muitas vezes nem são sinónimo de família, de todo. Quando olho à volta vejo muitas crianças que já não são filhos, e muitos casais que já não são família, temos de ser mais conscientes do que representa constituir uma família, do que represente colocar a nova geração no mundo e principalmente o que representa educar a nova geração e a sociedade não pode ser o motor destas decisões. Não podemos ter filhos apenas porque é o que a sociedade espera que façamos, muito menos devemos ter filhos para salvar casamentos. 

Quando planeamos ter um filho temos de ser conscientes do que nos será exigido.

Conscientes, acho que é a palavra que define tudo o que queria dizer sobre este assunto.